Estudantes de Medicina do Fies enfrentam risco de abandono do curso
- gilbertosantosmarc
- 14 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Coparticipação crescente, teto de R$60 mil por semestre e dificuldades regionais pressionam universitários de todo o Brasil, no Amazonas, inclusive!

Milhares de estudantes de Medicina aprovados pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) vivem hoje um verdadeiro pesadelo financeiro. Além de acumular uma dívida estimada em mais de R$ 700 mil — proveniente do empréstimo mensal de cerca de R$ 10 mil —, eles ainda têm que arcar com a coparticipação, valor mensal adicional que pode ultrapassar os R$ 2 mil — e isso sem contar o teto semestral de R$ 60 mil imposto pelo programa.
Evasão dos estudantes do Fies chega a 80%, segundo FNDE
No fim de 2024, boletos de R$ 1.500 por mês já representavam um peso enorme. No entanto, no primeiro semestre de 2025, muitos desses valores saltaram para até R$ 2.300 — o que impede renovação do Fies e garante evasão em massa, segundo o FNDE.
“Eu tive que parar, e estou com uma dívida de R$ 120 mil”, relata a baiana Ana Carolina Ferreira Cortes, de 23 anos. Natural da cidade de Jequié, ela mora com a avó, que recebe aposentadoria de um salário mínimo e não tem condições de pagar os estudos da neta.
“O sonho da minha vida, desde criança, sempre foi ser médica, mas minha família não consegue bancar a coparticipação do Fies”, diz, comentando que teve muita dificuldade para quitar, por um ano, boletos mensais de R$ 425. “Pessoas da família se juntaram para me ajudar, mas o valor da coparticipação subiu para quase R$ 900 e ficou impossível.”
Natural do município de Pires do Rio, em Goiás, Eduarda Cristina Gonçalves Cardoso, de 22 anos, viu sua mensalidade subir e agora trabalha em dois turnos para tentar arcar com os custos. Eduarda prestou vestibular para Medicina em universidades públicas do país durante quatro anos, mas não conseguiu vaga. “Quando surgiu oportunidade de tentar o Fies, fiquei muito feliz”, relata a jovem, que começou a estudar em uma faculdade privada por meio do empréstimo estudantil de R$ 10 mil por mês. Após a conclusão do curso, esse financiamento será de aproximadamente R$ 720 mil e deverá ser devolvido.
“Mas, além dessa dívida para pagar depois da formatura, já temos uma coparticipação em cada mensalidade”, informa a estudante, ao explicar que o valor para estudar Medicina no Brasil ultrapassa R$ 10 mil por mês, e o aluno que ingressa no Fies precisa pagar a diferença. “O que ninguém esperava é que a coparticipação aumentasse tanto a cada semestre”, diz a jovem.
Em audiência pública realizada em Brasília na última terça-feira (8) para tratar da situação dos estudantes de Medicina do Fies, um dos diretores do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), André Carvalho, alertou para a complexidade do problema.
Em Manaus, estudantes também se endividam. Embora não encontremos relatos de alunos de Medicina, o Estado negociou mais de R$ 177 milhões em dívidas do Fies em 2024, beneficiando cerca de 4.724 contratos.
Cenário amazonense
Em 2023, 991 alunos do Amazonas foram beneficiados pelo Fies — sendo maioria negra (73,9%) e mulheres (64,6%). No entanto, a crise no Estado é evidente: o Desenrola Fies já renegociou 4.724 contratos, mas as dificuldades permanecem com altos valores de dívida acumulada.
Em Manaus, a Universidade Nilton Lins — uma das poucas instituições privadas com Medicina — também adota o Fies, o que indica que acadêmicos do Amazonas que ingressam em Medicina estão vulneráveis aos mesmos aumentos bruscos da coparticipação.
Movimento “Fies Sem Teto”
Atualmente, cerca de 9 mil estudantes de Medicina organizados pelo movimento “Fies Sem Teto” pedem a revisão do teto de financiamento e a manutenção do contrato mesmo com atrasos — para evitar que milhares abandonem o curso.
Representantes relataram em audiência na Câmara que alguns vendem marmitas, móveis e sacrificam outros aspectos da vida para continuar estudando. A promessa do presidente Lula, de que “o filho do pobre poderia voltar a estudar”, tem sido usada como argumento, mas ainda não se concretiza para muitos .
Reações do governo e Legislativo
O MEC informou que o teto atual — R$ 60 mil por semestre — foi criado para evitar o superendividamento e que órgãos como o FNDE monitoram os custos, com possível revisão em análise.
Na Câmara, tramita o PL 1013/25, de autoria do deputado Dimas Gadelha (PT-RJ), que propõe o fim do teto de financiamento para que o Fies cubra 100% da mensalidade, sobretudo em cursos mais caros como Medicina — medida sem impacto orçamentário, segundo o autor.
O futuro dos formandos
Enquanto esse debate avança em Brasília, muitos jovens permanecem à beira da desistência, com dívidas altas, boletos atrasados e incerteza sobre a continuidade dos estudos. A chamada “transferência de renta” via Fies tem sido alvo de críticas: foi desenhada para ampliar o acesso — hoje, porém, está servindo para bancar mensalidades infladas e deixar estudantes sobrecarregados.
No Amazonas, apesar do alto número de financiados e renegociados, ainda não há relatos de casos concretos em Medicina — mas a realidade financeira local aponta para riscos semelhantes aos do restante do país.
A crise do Fies em Medicina é nacional e impacta também os futuros médicos do Amazonas. Com o teto atual limitado, a coparticipação crescente e a inadimplência elevada, muitos enfrentam o dilema entre encerrar o sonho ou mergulhar ainda mais na dívida. A proposta de eliminar o teto pode aliviar a situação — mas segue em análise. Resta aguardar respostas e ajustes para que jovens, independentemente da sua origem, não sejam forçados a desistir da vocação médica devido a dificuldades financeiras.







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