Do silêncio à funcionalidade: histórias reais desafiam os limites do autismo nível 3
- gilbertosantosmarc
- há 15 horas
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Mães atípicas relatam como conseguiram tirar seus filhos autistas de crises severas para a funcionalidade e convivência em sociedade, por meio de tratamento não medicamentoso e não invasivo em sessões de neurofeedback
Às vésperas do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado neste 2 de abril, histórias reais de mães e especialistas vêm chamando atenção para um tema ainda cercado de dúvidas: a possibilidade de evolução funcional em crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) suporte 3, considerado o grau mais severo.
Caracterizado por dificuldades significativas de comunicação, interação social e autonomia, o autismo nível 3 ainda é, muitas vezes, associado a limitações permanentes. No entanto, experiências acompanhadas por profissionais da área apontam que, com intervenções adequadas, é possível promover avanços importantes na qualidade de vida dessas crianças. É o que relata a psicóloga e mãe Miriam Marques, que vivenciou de perto o processo de desenvolvimento do próprio filho, o Enzo Derzi.
“O Enzo é severo, não verbal, identifique logo na maternidade. Aos três anos eu o levei na neuropsicóloga, ele tinha muitas crises desde a hora que ele acordava até a hora que ele ia dormir. Ele quebrava os brinquedos, os vidros da casa, tinha crises severas de dores de cabeça, devido a isso a gente estava perdendo a nossa vida social, não íamos a shoppings, festas de aniversários, nós havíamos perdido a nossa autonomia, além de gastarmos muito dinheiro com gasolina, pois ficávamos dando voltas com ele em toda a cidade, era o que o acalmava, nós vivíamos numa prisão, estava fugindo das minhas habilidades e competências que eu tinha para lidar com a situação”, relatou Miriam.
"A parte mais difícil foi quando ele cometia o autoagredindo, se autolesionando, batendo a cabeça na parede, e este foi o momento que a gente já não aguentava mais ver as crises emocionais, ver o sofrimento dele e o nosso desgaste mental e físico. Eu sabia que aquele momento infernal que estávamos vivendo não iria ser para sempre, porque a criança não iria aguentar e nós também não, precisamos fazer algo rápido. Os protocolos da neuromodulação aplicadas pela doutora Conceição Barbosa foram essenciais para tornar o Enzo funcional, hoje já tem cinco anos, a medida que o tratamento evoluiu as crises foram diminuindo, e hoje aos 8 anos, o Enzo está funcional, lê, escreve na cursiva e bastão, desenvolveu a linguagem oral de comunicação, formula perguntas e responde, ele frequenta locais movimentados novamente, ainda tem suas limitações porque ele é um autista, mas hoje ele é independente para fazer qualquer atividade, segue rotinas a promessa de ele ser funcional foi cumprida, a doutora Conceição tirou meu filho das crises de 24h, e hoje nós temos harmonia e paz”, disse Miriam emocionada com a evolução de seu filho de nível severo para uma criança funcional.
Assim como ela, outras mães também têm observado mudanças significativas a partir de abordagens terapêuticas voltadas ao neurodesenvolvimento e à individualização do cuidado. É o caso de Mônica Gomes, mãe de Renato Júnior, que também acompanhou a evolução do filho ao longo do tratamento. Mônica percebeu, logo após os dois anos, que Renato precisaria de cuidados mais que especiais.
“Eu desconfiei quando o Renato tinha 2 anos e 5 meses, porque ele era uma criança não verbal, ele não falava ainda, só balbuciava mamãe, papai e vovó. Ele ficava muito no cantinho dele e quando a gente chamava ele não falava. Coloquei ele numa escolinha e ele melhorou bastante, daí fui ao pediatra e expliquei que ele se irritava por não falar, batia a cabeça na parede, ele me indicou ao neurologista, mas ainda assim, o laudo ainda era inconclusivo e só após uma avaliação neuropsicológica veio o diagnóstico correto”, disse Mônica, explicando que viu na neuromodulação melhorias ao longo do tratamento.
“Fui encaminhada para fazer o neurofeedback com o Renato, onde o cérebro dele começou a ser treinado e modulado e quanto mais cedo você faz esse tratamento, mas ele evolui e fica mais funcional, podendo estudar trabalhar, constituir uma família, ele não vai deixar de ser autista, mais vai ficar funcional com a neuroestimulação, foi uma luz no fim do túnel e com dez sessões ele começou a falar, o que eu mais queria. Do autismo meu filho está regulado, ele não tem crise, ele consegue se comportar em quaisquer locais movimentados, ele está sem estereotipia, ele evoluiu muito nos últimos três anos e hoje fala pelos cotovelos”, celebra.
De acordo com a neurocientista, neuropsicóloga e neurofisiologista, Conceição Barbosa, especialista em TEA e em neurofeedback nos Estados Unidos, o conceito de funcionalidade está diretamente relacionado à capacidade da criança de se comunicar, interagir e realizar atividades do dia a dia, ainda que com suporte.
Diagnóstico não é sentença definitiva
Entre os principais pilares do acompanhamento, destacam-se os estímulos direcionados ao cérebro, com foco no neurodesenvolvimento, a construção de planos terapêuticos totalmente individualizados e o envolvimento ativo da família no processo. Segundo a neurocientista, o ambiente familiar exerce um papel fundamental na consolidação dos avanços, funcionando como uma extensão do trabalho realizado em consultório. A repetição, a constância e o vínculo emocional são fatores determinantes para o progresso.
“O diagnóstico não pode ser visto como uma sentença definitiva. Cada criança possui um potencial único de desenvolvimento, que pode ser estimulado por meio de estratégias adequadas e contínuas, principalmente por meio do neurofeedback, tratamento com eletrodos não medicamentoso e não invasivo, dentre outros tratamentos que podem ser aplicados variando de criança a criança, após fazermos o mapa cerebral”, explica a neurocientista.
Além disso, a abordagem personalizada permite identificar as necessidades específicas de cada criança, respeitando seu tempo e suas particularidades, o que amplia as chances de evolução funcional. A discussão ganha ainda mais relevância diante do aumento no número de diagnósticos e da necessidade de ampliar o acesso à informação e aos tratamentos adequados. Para muitas famílias, o desconhecimento ainda é um dos maiores desafios enfrentados no início da jornada.
"Quando falamos de crianças com neurodivergências, especialmente no autismo nível 3, o primeiro passo é a regulação do sistema nervoso. Uma criança desregulada não consegue aprender, interagir ou responder aos estímulos de forma funcional. A partir do momento em que conseguimos promover essa regulação, o cérebro passa a estar disponível para o desenvolvimento. É nesse cenário que a funcionalidade começa a emergir, permitindo avanços reais na comunicação, no comportamento e na autonomia. Por isso, todo o trabalho precisa ser estruturado, individualizado e, principalmente, contínuo, com a família fazendo parte ativa desse processo”, assevera a neurocientista.
As histórias de Miriam e Mônica reforçam que, embora o caminho seja desafiador, avanços são possíveis quando há intervenção qualificada, acompanhamento contínuo e participação ativa da família. Mais do que relatos individuais, os casos evidenciam a importância de olhar para o autismo de forma ampliada, considerando não apenas as limitações, mas também as possibilidades de desenvolvimento e autonomia.
Neste 2 de abril, o convite é para que a sociedade avance não apenas na conscientização, mas também na compreensão e no apoio às famílias que vivenciam o autismo em sua forma mais severa.
Dra. Conceição Barbosa está disponível para entrevistas presenciais em Manaus e online em todo o Brasil*





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